As artimanhas do coração - parte 9

    Os dias de convivência de Eugênia com Francisco, em Dubai, não foram dos mais agradáveis. Eugênia se sentia extremamente frustrada... Imaginara que, naquela viagem, pudesse recuperar  a razão de existir que perdera com a morte do marido Leopoldo. Não recuperou... Francisco se envolvera tanto em negócios que não teve tempo de lhe dedicar a almejada atenção. 
    Como Francisco me parecia fascinante!!! Desde que me atropelou na ciclovia ficou fixo na minha memória. Não pude fugir ao encantamento. Estranho, nessa exposição em Dubai, o seu comportamento em relação a mim. Não me senti mais do que uma companheira de passeio. Uma simples amiga talvez. Ou até menos. Qualquer peça do seu acervo artesanal, naquele momento, merecia dele maior valorização. 
    Com tudo isto em mente Eugênia se sentiu a vontade para, com as passagens enviadas por Fadil, fazer nova viagem a Dubai. Em relação a Francisco não percebia nela qualquer tipo de dever. Lamentava que a paixão sonhada não tivesse se consolidado. Mas sabia que nisso não tinha culpa. O destino assim decidira. Quem sabe tenha sido melhor.
    Surpresa de Francisco
    Ao encontrar o bilhete, deixado por Eugênia, o artesão Francisco ficou surpreso. Estava para embarcar rumo à China e, antes disso, não tinha tempo para esclarecer a situação. Isto é: falar com a mulher amada sobre aquela chocante decisão. "Pensei que tudo entre nós estivesse muito bem. Não conseguimos ainda, é claro, o tempo ideal para definir procedimentos futuros. A viagem a Dubai nos privou da aproximação que eu almejava. Acredito que deixei aquela preciosa pessoa sem a devida valorização."
    Um homem e uma mulher com corações insatisfeitos. Cheios de amor para dar. Só que um vazio teimoso era, ainda, a realidade presente. Eugênia embarcou para Dubai e Francisco foi à China. O enorme encanto, surgido entre eles, já no primeiro encontro, precisava de um recesso ou estava definitivamente extinto? Nenhum deles tinha condições de dar resposta a esta silenciosa indagação. 
    Eugênia, ao chegar em Dubai, teve calorosa acolhida. Fadil pedira a parentes e amigos próximos que formassem uma simpática comitiva para tornar o desembarque da brasileira bem agradável. Ninguém podia negar esse favor a um homem que enorme bem faz para o seu país e, também, às pessoas que lá residem. Se alguma dúvida Eugênia ainda tinha, sobre a decisão de fazer aquela viagem, naquele momento foram dissipadas. "Acho que agi de maneira adequada. Fadil me convence, cada vez mais, de que tem um encanto e um padrão educacional acima do que até hoje conheci."
    Requinte e calor humano
    Do centro da comitiva de recepção, ainda no aeroporto, Fadil caminhou em direção a Eugênia. Seu rosto estava ornamentado por olhos ainda mais verdes (esse um dos detalhes mais percebidos por Eugênia na primeira visita). Teve a impressão de que aquele homem poderoso, de quarenta e dois anos, havia aplicado em suas faces duas esmeraldas habilidosamente lapidadas. Fadil é um homem bonito dos pés à cabeça. Seus olhos, no entanto, constituem um ornamento exclusivo. "Há milhões de olhos verdes neste mundo. Os de Fadil, entretanto, parecem ser obra de um celestial artesão" - pensou Eugênia.
    Nem só fisicamente é lindo Fadil. Seus gestos também são cem por cento perfeitos. Eugênia nem havia concluído a meditação, sobre os olhos cor de esmeralda, quando sentiu-se abraçada pelo árabe encantador. Foi um momento único. O calor e o perfume que emanavam daquele corpo exuberante eram incrivelmente marcantes. Certamente jamais seriam esquecidos. "E esquecer isto por que?" - raciocinou Eugênia sem vontade alguma de sair dos braços de Fadil.
    A chegada à mansão de Fadil também foi triunfante. A recepção ainda mais esplendorosa do que a ocorrida no aeroporto. O apaixonado árabe cuidara dos mínimos detalhes. Dera as coordenadas de procedimento para as pessoas de sua confiança. Tanto da família quanto da equipe de trabalho. Da menos graduada até a de mais elevada posição. Eugênia se sentia cada vez mais encantada. Jamais imaginara algo tão perfeito. 
     Rostos fora do tom
    O quarto, onde Eugênia foi hospedada, era algo tipo paraíso. Luxo em cada milímetro. Os árabes poderosos não limitam investimento em conforto. Anoitecia. Ela se sentia muito bem. A tensão que pensara viver, dentro das luxuosas instalações, ainda não tinha aparecido. "Tomara que nunca apareça" - refletiu a brasileira que deixara de se apegar a qualquer pensamento negativo e partira, impetuosamente, para o país que havia conhecido na companhia do artesão Francisco.
    Quando alguém tocou a sineta da porta ela já estava preparada (banhada e vestida) para a noite. A serviçal anunciou que devia descer para o salão de jantar. Ela desceu. Fadil veio ajudá-la a percorrer os últimos degraus da longa escada que ligava o quarto àquele ambiente. A gentileza do seu anfitrião era indescritível. Algo celestial. Um lugar, ao lado dele, estava reservado para ela na mesa. 
    Eugênia se sentou e, então, pôde contemplar as demais pessoas que se encontravam no salão. Havia imagens inspiradoras de boa convivência misturadas a algumas que não recomendavam total confiança. Para felicidade dela a maioria se mostrava afável... Contente com a sua presença. Por outro lado uma pequena parcela não escondia a relutância. Àqueles olhares, de aparência suspeita, ela dedicava gentis sorrisos. Entendia que sorrir era a fórmula ideal de se quebrar o gelo ali talvez existente. 
    Era um primeiro momento. Difícil definir o padrão de personalidade de cada um. Eugênia, contudo, havia absorvido uma convicção... "Nem por todos sou aqui bem-vinda. Fadil é impecável. O grupo de familiares e amigos me parece homogêneo. As pessoas aqui, quase na totalidade, me aceitam muito bem. Tenho a impressão que algumas peças neste cenário não gostam de Fadil e, evidentemente, muito menos de mim."
    Mulher inteligente e sensível Eugênia notou, já de chegada, que nos círculos do poderoso Fadil havia amigos de caráter duvidoso. Nem todos queriam o seu bem. Pelo contrário... Davam a clara impressão de que eram ferrenhos adversários. Pessoas que invejavam o belo e rico gigante do petróleo. Ela sentiu uma ponta de apreensão. Medo. Só que a alegria que emanava dos demais fez com que ela esquecesse desse fator negativo. Bem podia estar enganada... 
    Paixão e paciência
    Já era madrugada quando Eugênia voltou aos seus aposentos. Fadil a acompanhou até a porta e, com um delicado beijo no rosto, lhe desejou boa noite. Ela ficou ainda mais encantada com a gentileza do anfitrião. Fosse no Brasil não escaparia de uma insistente cantada. O belo árabe agiu bem diferente. Parecia em nada querer forçá-la. Pensamentos sublimes e, talvez bem apaixonados, a deixaram de olhos abertos por um bom tempo. Adormeceu embalada pela delicadeza com que tinha sido tratada desde que chegara a Dubai.  
    Sábado... Eugênia despertou de seu suave sono quando já eram dez horas. Encontrou no roupeiro as vestes que precisava usar naquele dia. Não tinha pensado ainda nesse detalhe. Fadil havia pensado por ela. Colocou cada peça com especial cuidado e, depois, pôs-se frente ao espelho. Gostou do que viu. Gostou demais. Sentiu-se satisfeita e feliz com aquela imagem. Nesse instante alguém anunciou que devia se dirigir ao pátio da mansão onde estava servida a sua refeição da manhã. 
    Esse "café da manhã árabe" ela usufruiu na companhia exclusiva de Fadil. Ele havia saído da cama muito mais cedo. Aguardara, mesmo assim, o seu despertar para fazer aquela refeição. Ela percebeu o gesto de delicadeza e brincou: "Quase o matei de fome. Perdoe-me! Nunca dormi tanto assim. A sua casa está me fazendo muito bem." Fadil respondeu: "Eu não seria digno do privilégio da sua presença se colocasse o meu estômago em primeiro lugar."
    Depois do café os dois partiram para um passeio a cavalo pela extensa propriedade. Fadil mostrou um pouco do que estruturara com dedicação e orgulho. Em uma só manhã... Em um só dia... Em uma só semana... Sim!!! Pouco tempo não permitia dar a Eugênia ciência de tudo que lá existia. Então, todas as manhãs, Fadil e Eugênia faziam mais um passeio. Sempre em cenários diferentes. A beleza era, invariavelmente, deslumbrante.
    Quase um mês se passou e Fadil não fez qualquer tipo de pressão sobre Eugênia. Ela já estava pensando não ser atraente o bastante para que o árabe de olhos verdes realmente a quisesse como mulher. Além do falecido marido Leopoldo a madura e ainda atraente brasileira só tivera experiência afetiva, uma única vez, com o artesão Francisco. Fadil poderia ser o terceiro homem a ter contato com seu corpo. 
    A data de seu retorno ao Brasil estava próxima quando Fadil achou ser hora de revelar a Eugênia as suas vontades. Os seus desejos... "Estou encandecido de paixão por você. Eu estou amando como nunca imaginei ser possível. Perdoe-me a falta de elegância. Acontece que meu sangue, quando você está perto, ferve de um jeito insuportável e é penoso demais aplacar esse precioso calor de formas que não sejam em seus braços."
    Se Eugênia tinha alguma dúvida, sobre os seus anseios em Dubai, naquele instante foi desfeita. Sem medo de ser feliz se jogou nos braços de Fadil e, sobre a macia grama das margens de um lago colorido de azul celestial, deixou o amor acontecer. Houve ali um momento do mais pleno prazer. Fadil era uma espécie de deus. Mostrava-se bom em tudo. "E no amor, perdoe-me Leopoldo, este árabe é impecável" - admitiu Eugênia.
    Chamado imprevisto
     A partir dessa experiência de amor, às margens do lago, Fadil e Eugênia passaram a se sentir profundamente ligados. Como dois adolescentes se entregavam à flamante paixão com incrível frequência. Esses momentos eram marcados por uma ardência além do comum. O homem e a mulher tinham certeza... "Mesmo que o destino nos separe teremos esta preciosa relação para nos alegrar. Ninguém consegue ser infeliz com a lembrança de um amor desse tamanho. Com o calor que fica desta mais que afetuosa relação. O prazer que sentimos, no contato de nossos corpos, é um patrimônio indestrutível. Inesquecível. Algo capaz de aplacar qualquer tipo de eventual tristeza."
    Fadil e Eugênia, tudo parecia, tinham sido feitos para se amar eternamente. Viviam, em Dubai, embalados pelo desejo de um amor constante... Um amor vitalício. Surge aí um acontecimento imprevisto... Ricardo, via internet, chamava a mãe Eugênia para auxiliá-lo, em questão de família, na Inglaterra. Um dos filhos precisava ser submetido a delicada cirurgia e ele queria, para tomada de decisão, a opinião dela. 
    O menino Alexander, quatro anos de idade, filho de Ricardo e neto de Eugênia, recebeu um diagnóstico médico: tinha que passar por uma operação cirúrgica para evitar distúrbios ortopédicos no futuro. Esta intervenção cirúrgica podia esperar até oito anos. Ricardo queria o parecer de sua mãe... Fazer isso agora ou esperar alguns anos? Eugênia achou que era melhor fazer o tratamento logo. Por esse motivo teve que ficar na Inglaterra por seis meses - quase sem contato com Fadil. 
    Vigilância indiscreta
    O rico árabe de olhos cor de esmeralda ficou inconformado. Para aplacar a saudade, todas as manhãs, fazia um passeio a cavalo por suas terras imaginando estar na companhia da grande paixão brasileira. Às vezes parava às margens do lago de água azul celestial e fechava os olhos para sentir o calor e o perfume da pele de Eugênia a roçar suavemente o seu peito nu. Com muita frequência, nessa agradável relembrança, viu lágrimas teimosas a umedecer suas faces. "Eugênia!!! Estará pensando em mim agora? Estará feliz? Sentirá saudade assim tão persistente? Terá a sede de amor que sinto? Um amor que só por ela consigo sentir. Uma chama ardente que só ela pode aliviar."
    Eugênia envolvida com a família na Inglaterra... Fadil sofrendo de saudade em Dubai. É nesse momento que os amigos de caráter duvidoso - identificados por Eugênia no primeiro jantar da segunda viagem a Dubai - decidem entrar em ação. Sem que ninguém soubesse haviam instalado câmeras de observação no quarto onde Eugênia foi hospedada. Desta forma tiveram condições de acompanhar e gravar, com som e imagem, cem por cento da sua movimentação nos aposentos. 
    Fadil foi convocado, por esses pseudos-amigos, para uma troca de ideias. Sem qualquer pudor expuseram-lhe o resultado da espionagem feita ao longo da visita de Eugênia à mansão. Nesse acervo, de som e imagem, estavam muitas horas que Eugênia dedicou a procura de informações sobre os passos do artesão Francisco. Os amigos de caráter duvidoso achavam esse material escandaloso. Recomendavam a Fadil que expurgasse Eugênia da sua vida. 
    O irremediavelmente apaixonado árabe de olhos verdes, frente a essa novidade, sentiu-se fatalmente obrigado a somar, à tristeza da saudade, uma enorme dose de desilusão. Tinha conhecido Francisco durante a exposição em Dubai - oportunidade em que se encantou pela brasileira Eugênia. Não desconhecia a ligação, de amizade ou afeto mais significativo, que existia entre os dois. Alimentava, apesar de tudo, a ilusão de poder conquistar a mulher com a confissão dos seus verdadeiros sentimentos. E parecia ter conquistado. 
    Estava Fadil, agora, em um enorme conflito pessoal... "Será que tudo foi só falsidade? As palavras, os gestos, os sorrisos, os abraços, os beijos... Enfim: os nossos incandescentes momentos de amor não teriam, para ela, ido além de mero passatempo? Não acredito. Eugênia é um ser verdadeiro. Eu a amo. Em breve ela estará aqui novamente e poderá me dizer por que razão acompanha de forma insistente a trajetória do artesão Francisco. (Autora: Aline Brandt - Todos os direitos reservados/Lei dos Direitos Autorais N° 9610/98)

    Observação da autora: Apesar dos recursos tecnológicos disponíveis Fadil preferiu não se comunicar com Eugênia nos meses de ausência. Não imaginava que a falta de comunicação pudesse reaproximar Eugênia de Francisco. 

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